Nem bem recordo a autoria desta frase. Parece ser de João Guimarães Rosa. Mas poderia ser alguma reflexão do Tao Te Ching ou um dos provérbios atribuídos ao Rei Salomão - ele que gostava de dirimir questões provenientes do relacionamento em sociedade. Mas, para nosso proveito, vamos considerar esses “outros” como sendo nossos filhos. Assumindo a proposta que me fora formulada pelo conselho editorial da revista da Escola de Pais, para que eu abordasse “os pais diante do espelho” e “a imagem dos pais perante os filhos”, decidi logo juntar as coisas: que melhor espelho para os pais que não os próprios filhos? E que pior modelagem temos de nós mesmos do que os erros cometidos por nossa prole?
Na sintaxe familiar temos verbos bem ou mal conjugados. A boa sintaxe é a oração bem composta, que resulta, sobretudo, de verbos bem conjugados, levando a uma boa semântica, um sentido adequado para a inserção social da família. O verbo, apropriando-me da linguagem escatológica, é aquilo que depois vai se fazer carne e habitar entre nós. Mas antes disso o verbo é simplesmente uma mulher ou um homem andando solto(a) por aí, tentando se afirmar como sujeito e fazendo diversas conjugações com as palavras, com as coisas, com os fenômenos, com os fatos, com desafios e desafetos. O objetivo dessas conjugações é transcender, ou seja, superar problemas para girar em um nível mais elevado e galgar degraus. Aprimorado a cada dia, esse verbo-sujeito, antes inflexível ou defectivo, ou seja, no qual cabiam poucas pessoas em raros tempos e modos ou mesmo nenhuma conjugação, à medida que vai se superando, vai também tornando-se apto a uma das maiores conjugações: aquela no infinitivo, de simplesmente ser e se tornar um em dois e fazer-se cônjuge. Buscando o que há de comum entre si, mulher e homem fazem a conjugalidade. A simbiose só surge de fato se as semelhanças forem consistentes e se firmando com o tempo. Caso contrário, pode ocorrer apenas uma relação de parasitismo saprófita, onde cada um vai se nutrindo dos podres do outro até ambos se decomporem totalmente. E é bom saber que material em decomposição é ótimo chão para se plantar repolho, mas péssimo ninho para nascer pimpolho. De qualquer forma, qual seja a natureza dessa parceria, ela revelar-se-á no espelho com dimensões equivalentes. A fruta não cai longe do pé.
Os cônjuges são a imagem especular um do outro. As coincidências que os aproximaram refletirão o grau dessa proximidade. Aqui o brilho ou a penumbra podem se revelar. Seja o que for revelado, é o que vai refletir de volta nos consortes. E vai reforçá-los enquanto verbos capazes de gerar vida, mesmo que verbos defectivos. Esta pode ser a primeira das maldições para o futuro núcleo familiar. Sim, porque o nosso verbo intersubjetivo (aquele de um em dois – marido e mulher) acabou de se fazer carne para habitar entre nós: é água no feijão que nasceu João; e mais louça na pia que nasceu Maria.
À medida que os dois sujeitos-verbos se conjugam para procriar, eles deixam de ser defectivos, mas podem continuar sendo verbos irregulares. E essas irregularidades, essas arestas por aparar, certamente se transmitirão à prole, às vezes com carga dobrada. Ao se fazer carne, pode ser que seja carne de segunda. É quase invariavelmente assim com todo casal: a intenção de ambos, enquanto cascalho bruto, é reaparecerem lapidados em forma de diamante dezoito quilates – o seu filho de ouro, a sua pedra preciosa. Seja qual for a refulgência ou a opacidade, é o que no espelho vai refranger. Não há como fugir da imagem guardada no vidro com chapa de aço. Ela estará sempre lá, conservando todas as nossas conjugações: as que fizemos e fazemos conosco mesmos – essas até que dá para suportar; as que fazemos com a parceira ou parceiro que nos torna cônjuge – essa podia ser dispensada(foi, quem sabe, apenas um filme queimado); e as que resultaram em nossos filhos – que podem se tornar horríveis espelhos. Aquela decepção – como esse menino foi me sair assim? Ele não tem nada a ver comigo... – é pura ilusão de óptica. O desabafo correto seria: como que eu fui sair assim de novo? De qualquer modo, as imagens dos outros podem ser como signos deformados flutuando na água. E não é com uma paulada no espelho d’água que a imagem vai se endireitar. Todos nós perpetuamos anjos e demônios, os nossos chamados santos diabinhos. Temos que admitir que, mais do que sermos o autor da criatura, somos a própria criatura, apenas com nova roupagem – a essência é a mesma. Na natureza nada se cria, tudo se transforma.
Em nossa primeira conjugação de verdade – aquela que nos tornou cônjuges – talvez não tenhamos feito o suficiente para evitar o estarrecimento diante do espectro de nossa segunda conjugação – o rebento que encarnamos. Esse filho, que freqüentemente elicia nossos modelos de comportamento, e que, desafortunadamente, nos renega ou nos auto-afirma com uma imagem invertida, indesejada, fazendo com que nós nos tornemos nós mais uma vez, levemente melhorados ou rudemente piorados, pois bem, esse rebento caçoa de nós diante do espelho ou nós é que o ironizamos, dando-lhe poucas chances de se desvencilhar. Enquanto ele é para nós horrível espelho, nós somos para ele tosca realidade. E fica claro que nossos conflitos são mesmo de espelhagem. Nós lhe apontamos com a paternidade compulsória, como se ele tivesse pedido pra nascer, e ele, afrontando-se com seu narcisismo, atira-nos à cara, sem uma palavra sequer, todos os vícios de uma conjugalidade que julgamos ter construído com a intenção de suprir as defecções dos verbos que vivemos ao longo dos anos. Às vezes o verbo-homem se conjuga descaradamente na mesma, e ganha o nome de júnior. Acho que essa decisão tem duplo sentido: masoquismo do genitor e sadismo com a genitora e com o fruto do ventre dela.
Mas qual é o papel da Escola de Pais nessa tragicomédia de espelhagem? Entendo que é exatamente o que está exercendo. E aqui cabe, ao menos de minha parte, mais elogios do que admoestações. O papel é mesmo o de nos ajudar a meditar sobre o tipo de conjugado que nos tornamos. Que mesmo quando me desconjugo do cônjuge, a outra parte continua em mim, como unha e carne. Unha encravada e carne processada, defumada. Não é minha intenção ser anedótico ao comparar casal separado com salame curtido, mas o ex-cônjuge continua preso ao “desconjugado”, ou como tempero curtindo a carne ou como pele de tripa seca ou como cordão que delimita o embutido. É como se estivesse todo dia tirando a tripa do porco e botando o porco na tripa. Se antes do desconjugamento os cônjuges tiverem se perpetuado, aí então a nova representação do desconjugado vai paquidermizar para sempre sua imagem.
No caso de um segundo enlace, outra concubinagem ou uma nova união consensual, não quero ser estraga-prazeres, mas é bom saber que esse novo elemento pode não conseguir se livrar do estigma de configurar uma segunda pele para seu consorte. A todo custo se empenha em derreter a tripa seca, desatar o cordão ou desfazer o tempero. Tudo em vão. O salame, depois de curtido, pouco perde de sua originalidade. Quanto mais a segunda pele aperta, mas estreita a conjugação das carnes originais. E essa marca não se apaga. Ela se transmite até mesmo para os novos rebentos, que não têm nenhum elo genético com o antigo verbo. Explico de que modo. É porque as inscrições do genitor de segundo enlace, que se transmitem ao novo rebento, trazem as marcas do convívio desse genitor com seu ex-cônjuge. Sim, porque um ser humano não é mais o mesmo depois que conviveu longo tempo com outro; ele incorporou traços do outro. Essa incorporação é suficiente para provocar mutações aleatórias em seu código genético e promover sua adaptação parcial ao modo de ser do outro. E ao gerar prole, esse indivíduo transmite à prole vários de seus traços mutantes. Assim, o espectro de um verbo encarnado diante do espelho é bastante complexo. E não entendemos donde vieram alguns feixes que ali estão se refletindo. Naquele novo sujeito composto há fótons de ambos os genitores e de diversos elementos que influenciaram a vida dos genitores. Esta é a razão de muitas vezes não nos reconhecermos diante do espelho e manifestarmos com estupefação: essa menina não tem nada a ver comigo.
O ideal de realização da Escola de Pais seria atingir os moços, antes da primeira grande conjunção – aquela que os torna um em dois. Talvez não consigamos tanto. Mas é nossa obrigação lutar e exortar – meu filho, faça assim e faça assado, você ainda é muito jovem – mesmo que os verbos defectivos continuem se conjugando e fazendo novas carnes e encarnando velhos espíritos (sem nenhuma alusão à doutrina kardecista). Não há ninguém preparado para se tornar cônjuge. Nem cursinhos pré-nupciais, nem Escola de Pais nem consultórios de psicologia são suficientes para dar conta desse recado. É preciso, todavia, dialogar com os moços, pois alguns se tornarão multiplicadores de nossas mensagens.
Depois de algumas rugas e rusgas tomaremos consciência das conjugações que fizemos. Ainda assim, muitos de nós continuaremos sendo verbos eternamente defectivos e nos assombrando com nossos próprios fantasmas no espelho. Não esqueçamos, porém, que na composição especular de nossos filhos entra parte e contraparte. O que chamo de parte é a participação dos pais ou cuidadores durante a infância; é o conjunto das escolhas que estes fazem pelas crianças. E a contraparte é o efeito das decisões tomadas pelo rebento a partir do início da adolescência. Sim, os filhos são co-responsáveis pelos paradoxos que o espelho aponta. Se a adolescência é a fase da contraposição, dos questionamentos, da resistência e dos conflitos, então é óbvio que também é a fase das próprias escolhas. Desse modo, o lado perverso do retrato dos filhos (e, por conseqüência, de nosso auto-retrato) é fruto dos apartes e contrapartes que os próprios filhos apresentam aos pais. Isso torna o filho também imputável pela aparência bela ou repulsiva que o progenitor observa diante do espelho, já que o adolescente começa a interferir no direcionamento de sua própria luz interior. Não podemos tratar os filhos como pobres coitados, traumatizados pela escuridão que se armou ao apagarmos a luz no meio da noite ou desamparados pelo que deixamos de fazer ou que não fizemos bem feito. Como disse José Saramago, na sombra também se cresce.
À medida que vamos aprimorando a percepção de nossas próprias conjugações, vai também se esmerando a composição especular dos verbos que derivam de nós. Porque o sistema de educação que prolifera (que desenvolve a prole) não é verbal nem verborrágico (esse falar pelos cotovelos). O melhor sistema é esse de olharmos para dentro de nós mesmos, vermos nossas sombras e nossas luzernas e não termos medo de cobrar dos filhos o uso que fazem da própria lanterna. Se estamos convictos de lhes termos transmitido o brilho de nosso olhar estruturante, então devemos ter a coragem de lhes recordar que eles estiveram muitas vezes com o dedo no interruptor, livres para alumiar ou escurecer os próprios caminhos. Do contrário, teremos sempre uma visão de míope remorso diante do espelho; nunca saberemos ao certo o ponto onde as imagens se formaram e nem como reposicioná-las no conjunto da fotografia.
- Família como um sistema sintático: conjugação de vários elementos para a construção de uma semântica – um sentido adequado para a inserção pró-social.
- PRÉ-SINTAXE FAMILIAR: O indivíduo solteiro e suas pré-conjugações – interagindo com o mundo, ele se comunica, se trombica, é desafiado a encarar desafetos, superar conflitos, crescer e se tornar sujeito autônomo, dono do próprio nariz. Mas sempre chega imperfeito, tortuoso, às vezes esfacelado para a primeira conjugação – excessivamente desvinculado do núcleo formador ou, ao contrário, ainda sob as barbas do pai ou grudado na barra da saia da mãe.
Falar da família constituída com base em novas identidades de gênero.
- 1ª. CONJUGAÇÃO: Contratualidade x Conjugalidade. Simbiose, parceria-construção mútua x parasitismo transconjugal. Os opostos se atraem?? O verbo se fez carne e habitou entre nós: quando nasce pimpolho em chão de repolho.
- PÓS-CONJUGAÇÃO: Os frutos têm conteúdos de aprendizado e conteúdos latentes – ambos deformam a imagem no espelho. Esperamos refulgência (filho de ouro, nossa pedra preciosa) e obtemos opacidade. Elementos pré-conjugados, conjugados e desconjugados refletem nos frutos da conjugação.
Aquela luz que reflete no vidro, incandeia os olhos quando bate na gente.
Figura do eclipse: brilho do sol bate no planeta e este faz sombra pro satélite. Será que somos astros ou penumbra? Desejamos que os satélites gravitem em torno de nós. Somos para eles tosca realidade. Ele são para nós horríveis espelhos, sombra.
Parte e contraparte na composição especular dos filhos.
O sistema de educação qualitativamente mais prolífico (que desenvolve a prole) é o de olharmos para dentro de nós e vermos até onde somos luz ou penumbra na vida dos filhos. Se transmitimos a eles o brilho estruturante de nosso olhar, não tenhamos medo de cobrar deles o uso que fizeram da própria lanterna. Esse brilho vamos adquirindo à medida que formos aprimorando a percepção de nossas sucessivas conjugações. Eis aí o principal fator capaz de desanuviar a imagem que os filhos têm de nós.
Autor: demerval florêncio da rocha
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